quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Kung-Fusão (2004)

Gong Fu (Stephen Chow - China/Hong Kong - 2004)

Sing é um ladrão de segunda categoria que sonha em integrar a sofisticada e implacável gangue Axe, que controla o submundo da cidade. Ele tenta extorquir dinheiro de um dos moradores do Beco Curral do Porco, um mo
vimentado complexo de apartamentos da periferia, se passando por membro da famigerada gangue, mas é surpreendido pelos vizinhos da vítima, que são inusitados mestres nas artes marciais. As tentativas atrapalhadas de Sing chamam a atenção da gangue Axe, que entra em conflito com os moradores do Beco do Curral do Porco. Desta confusão toda, grandes mestres das artes marciais surgem de onde menos se espera e batalhas pitorescas podem definir o futuro de toda a cidade. Kung-Fusão busca unir a ação enlouquecida do kung-fu de efeitos e de movimentos rápidos e agressivos com a comédia pastelão, criando personagens intencionalmente caricaturados, satíricos e impensáveis em outro gênero de filmes. Antes inaugurada pelo já famoso astro Jackie Chan, a comédia de Hong-Kong, sempre ligada às artes marciais, é muito bem aceita pelo público chinês e também pelo ocidente. Prova disso é que Kung-Fusão é o filme estrangeiro com maior número de cópias lançadas no concorrido mercado norte-americano. Ainda que os efeitos especiais justifiquem o orçamento de US$ 20 milhões – o filme mais caro da história de Hong Kong - e sejam muito bem elaborados no sentido de dar unidade às maluquices do roteiro, o que sustenta mesmo a narrativa são mesmo as personagens. De gangsteres que dançam como em um musical da Brodway, passando por uma senhoria no melhor estilo de tia chata, mas que demonstra uma grande habilidade marcial, até o maior assassino do mundo, que ostenta o estilo sapo de lutar, o filme apresenta uma infinidade de possibilidades de desenvolvimento focando um ou outro destes personagens. É como se o esquema de comédia e luta de Jackie Chan fosse potencializado em dezenas de personagens no mesmo filme. A fórmula de Kung-Fusão está muito calcada no cinema de ação codificado por Hollywood desde as primeiras décadas da história do cinema. Esta linguagem se combina à estética de contagem de histórias chinesa, formando um modo distinto de narrativa que, ao que parece, alcança um grande apelo transcultural. Desta forma, é um filme que brinca consigo mesmo e que, ao não se levar a sério, presta uma homenagem à todas as fontes de onde bebe: desde os desenhos animados da Warner Bros até os contos milenares chineses de grandes guerreiros escondidos e misturados ao povo.


Trailer

Ficha Técnica
Título Original: Gong Fu Gênero: Comédia Tempo de Duração: 95 minutos Ano de Lançamento (China): 2004 Direção: Stephen Chow Roteiro: Stephen Chow, Tsang Kan Cheong, Chan Man Keung Produção: Stephen Chow, Chui Po Chu, Jeff Lau Música: Raymond Wong Fotografia: Poon Hang Sang Desenho de Produção: Oliver Wong Direção de Arte: Second Chan Figurino: Shirley Chan Edição: Angie Lam Efeitos Especiais: Centro Digital Pictures Ltd.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Clã das Adagas Voadoras (2004)

Shi Mian Mai Fu (O Clã das Adagas Voadoras) - Zhang Yimou, 2004

No ano 859, a China passa por terríveis batalhas. Entra em uma era de decadência e corrupção e o governo dominado pela Dinastia Tang é incapaz de lutar contra os grupos que se rebelam. Dentre eles, o mais poderoso e prestigiado é o Clã das Adagas Voadoras. Em uma tentativa de desmantelar a organização dos rebeldes, Leo e Jin, dois soldados do exército oficial, são incumbidos de capturar o desconhecido líder do grupo e, assim, elaboram um plano, onde Jin se disfarça como um combatente solitário, ganha a confiança de um membro do clã, a garota cega Mei e, assim, infiltra-se no grupo. O que os dois soldados não esperavam é o sentimento que a bela revolucionária despertaria em ambos. O cinema chinês tem buscado, em uma de suas vertentes, resgatar a grande magia e poesia dos ideais das artes marciais. Para tanto, cineastas com Yimou têm buscado o perfeito equilíbrio entre o drama e as grandes questões do espírito humano e as artes do corpo. O Tigre e o Dragão, vencedor de um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Herói, também dirigido por Yimou são outros exemplos de como o cinema chinês se preocupa com esta que é uma particularidade oriental e que, aos olhos ocidentalizados, pode soar estranho e até irreal. O filme é caracterizado por suas belíssimas coreografias, que misturam luta e dança. Seja pelo movimento com espadas, bastões ou as adagas citadas no título, seja pelos altos vôos alçados por entre finíssimos bambus, o tempo de uma batalha no filme se difere completamente de outros filmes de artes marciais, mesmo os de Hong Kong. As direções de arte e de fotografia também têm um papel muito importante na construção poética do filme, abusando do uso de cores e contrastes que enchem os olhos do espectador e se distanciam ainda mais do cinza metropolitano dos dias atuais. O verde enche a tela em grande batalhas nos bambuzais e a neve branca entra em contraste com as personagens e o sangue que delas escorre. Somando-se à trilha sonora tipicamente chinesa, cria-se então uma atmosfera onírica. Já não se divide as personagens entre os bons e os maus e nem se busca causar torcida para que um ou outro lado saia derrotado. Que vença a poesia!



Ficha Técnica
Título Original: Shi Mian Mai Fu
Tempo de Duração: 119 minutos
Ano de Lançamento (China): 2004
Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Zhang Yimou, Li Feng e Wang Bin
Produção: William Kong e Zhang Yimou
Música: Shigeru Umebayashi
Fotografia: Zhao Xiaoding
Desenho de Produção: Huo Tingxiao
Direção de Arte: Han Zong
Figurino: Emi Wada
Edição: Cheng Long

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Definida a data para a realização do XIII Encontro Internacional da SOCINE

Depois do encontro da SOCINE em Brasília em outubro passado, que encaminhou o local e as datas para a realização do encontro, agora é oficial: o XIII Encontro Internacional da SOCINE a se realizar na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) será entre os dias 07 e 10 de outubro de 2009. Portanto, bem mais perto de nós aqui, o que facilita bastante o acesso.

Também já foi definido o calendário. Segue:

até 30 de janeiro: pagamento de anuidade para os que proporão seminários temáticos

1 a 20 de fevereiro: apresentação de seminários temáticos

20 de fevereiro a 6 de março: seleção de seminários temáticos

2 de março a 5 de abril: pagamento de anuidades para os que apresentarão propostas

9 de março a 11 de abril: inscrição e apresentação de propostas

9 de maio: reunião do conselho.

15 de maio: divulgação das propostas aprovadas.

Assim, com datas e local definidos, resta agora iniciar já a proposta para uma nova apresentação. A jornada recomeça.

Para saber mais sobre o que é a SOCINE e como foi o encontro de 2008, veja aqui mesmo no blog as minhas impressões e no site da RUA a cobertura completa feita por alunos da graduação e do mestrado da Imagem e Som da UFSCar.

Brasilianas - Meus Oito Anos - Canto Escolar (1956)


Se até aqui Humberto Mauro demonstrou muito apego ao campo e à temática rural, neste curta final da série Brasilianas ele mostra a forma como olha para o passado na roça. Dentre todos os curtas, esse seja talvez o mais auto-biográfico. O personagem que abre o filme, ao som de “que saudade da minha terra, da minha infância querida que os anos trazem mais”, é tomado em primeiro e primeiríssimo plano. É evidentemente protagonista, relembrando o passado talvez não com nostalgia, mas valorizando os momentos únicos que viveu e que só poderia viver ali, no seu campo, na sua terra. Não há uma vontade de no tempo em que poderia desfrutar daquele lugar voltar, porque lá ele já está. Ele tem saudades é da inocência de outrora, dos seus tempos de meninice, serelepe, correndo por entre as árvores e riachos, capturando passarinhos com a arapuca, sua maior vitória. As imagens ilustram o belo poema. As brincadeiras são o foco de sua saudade: estilingue, bolinhas de gude... Nada que a civilização moderna tenha conseguido alterar com suas indústrias e suas máquinas. Descansar na rede ainda é mais saboroso. Subir em árvores e brincar nas cachoeiras eram as grandes preocupações do menino. Como tanta coisa pode caber em uma infância só? Humberto Mauro se vê brincando em Volta Grande. A terra de onde saiu. A terra para onde voltou. A terra que levou ao conhecimento do Brasil com sua câmera de cinema para dizer o que é, de fato, o Brasil. Se um país de dimensões gigantescas pudesse caber em um único lugar, para Mauro, caberia naquele lugar.




Ficha Técnica
Título: Brasilianas:
Meus Oito Anos - Canto Escolar
Duração: 11 min
Ano: 1956
Gênero: Documentário
Cor: PB
Direção: Humberto Mauro
Fotografia e Montagem:
José de Almeida Mauro
Arranjo: Maestro Aldo Taranto

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Brasilianas - Manhã na Roça - Carro de Bois (1956)


O carro de bois, analisando a trajetória de Humberto Mauro após seus últimos filmes, tanto longas-metragens quanto curtas, parece ser dos seus temas mais bem quistos. Neste capítulo das Brasilianas, este carro é o destaque em uma manhã comum da roça. Seu som dá o ritmo da música que acompanha as tarefas triviais de um dia, seja ele qual for, de um brasileiro que vive da terra. Uma belíssima paisagem, como é comum nesses em todas as Brasilianas, é o cenário para homens ararem a terra, capinarem o mato ou tirarem leite. Os animais, tais como bois, galinhas e porcos, são protagonistas aqui também. A música gentil entra na mesma sintonia que o tempo único do campo, até o surgir do galinho garninzé, que se mostra dono do lugar. Desafia o galo maior e, em uma tensão, sai vitorioso. A ordem está re-estabelecida e a manhã segue seu caminho.
O carro de bois é montado pelos homens. Aqui, uma narração didática explica um pouco mais deste dispositivo tão comum e tão útil para o homem do campo. É onde se carregou muito do que construiu o Brasil. É como se estivéssemos em dívida com ele. O instrumento, aqui, toma lugar central em Manhã na Roça. É como se, sem ele, o filme nem existiria. O título se justifica. Não haveria manhãs como essa sem o carro de bois.

Ficha Técnica Título: Brasilianas: Manhã na Roça - Carro de Bois
Duração: 8 min
Ano: 1956
Gênero: Documentário
Cor: PB
Direção: Humberto Mauro
Fotografia e Montagem:
José de Almeida Mauro
Arranjo: Maestro Aldo Taranto

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Brasilianas - Cantos de Trabalho (1955)


Cantos de Trabalho
abre com um texto introdutório, onde diz que “canto de trabalho é música para suavizar e alegrar as tarefas braçais. As cantigas de trabalho, inspiradas na própria tarefa, existem em todo o Brasil, e nelas se encontram muitos dos mais belos fragmentos do folclore brasileiro”. Percebe-se novamente a intenção de destacar o país. É um costume estritamente brasileiro, que faz parte da brasilidade. Aqui, Mauro resume exatamente qual o sentimento que se terá ao final dos pequenos trechos que formam este filme: o trabalho braçal é árduo, mas a música suaviza, poetiza o suor dos que trabalham.
É assim que somos introduzidos ao primeiro canto, onde a mulher, ao socar o pilão, entoa “tanta gente pra ‘comê’ e eu só pra ‘socá’”. O trabalho repetitivo e o ritmo das batidas no pilão entram em consonância com a música, tornando tudo uma única coisa. É como se um dependesse do outro e de tudo isso, os pratos suculentos que sucedem do trabalho e que finalizam o trecho. Comidas tipicamente brasileiras, como aquelas pessoas que as fizeram. Quando homens, com os mesmos movimentos, utilizando um socador, agora firmando a terra onde pisam cantam “e bate o pilão, arueira”, o ritmo também se impõe aos trabalhadores e o sol quente que da pele deles faz escorrer o suor não parece tão forte quanto os homens que, filmados em planos próximos e em contra-plongée, se agigantam e, como em poucos momentos nas Brasilianas, tem rosto, tem identidade.
Na cantiga do barqueiro, que atravessa solitário o rio dentro de sua canoa furada, ele não só encontra as dificuldades que a própria atividade lhe impõem, como também parece sofrer mais com a distância da amada, que se despede dele a cada partida com um lenço branco na mão, tal como as descrições das esposas dos grandes navegadores em nossos livros de história. Para o barqueiro, cada dia é uma jornada, uma “grande navegação” com o barco cheio d’agua. Sua cantiga é mais triste, mas não menos bela e suave.


Trecho de Cantos de Trabalho


A cantiga de pedra, que apresenta homens trabalhando em uma pedreira, cortando, quebrando e carregando grandes rochas, tem uma batida mais forte, tal como o trabalho exige. “Oi companheiro oi, oi levanta a pedra, oi” é entoada por todos os trabalhadores, que se mostram unidos exatamente pelo “companheiro” da letra. Tal amizade é mostrada quando cada um ajuda o outro na tarefa, fazendo-a parecer menos difícil. A pedra carregada por muitos não parece tão pesada. Estes homens também nos são apresentados em planos próximos, tomando uma identidade, se impondo diante uma natureza forte e ríspida. Ao final do dia, guardam-se as ferramentas. O trabalho está feito. A missão do dia terminou.
Em todos os blocos, ou trechos, percebe-se o homem ou a mulher colocados em um lugar de destaque diante a natureza. Aqui, suas ações mudam o ambiente do qual fazem parte. Ainda que gente simples e em trabalhos braçais, tem o poder de recriar. E é exatamente esse brasileiro que Mauro quer mostrar ao Brasil. O homem da terra, trabalhador, forte, determinado. As pessoas constroem o seu lugar. Modificam-no. Unidos pelo trabalho ou sacrificando-se por este, os grandes homens, os verdadeiros brasileiros, constroem seu país. Cantando, como é típico deste povo.

Ficha Técnica
Título: Brasilianas: Cantos de Trabalho
Duração: 10 min
Ano: 1955
Gênero: Documentário
Cor: PB
Direção: Humberto Mauro
Roteiro: José Mauro
Fotografia e Montagem:
José de Almeida Mauro
Arranjo: Maestro Aldo Taranto

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Brasilianas - Engenhos e Usinas (1955)


Talvez dos mais didáticos desta série, este filme narra poeticamente a beleza dos velhos engenhos, movidos pelas corredeiras mansas de riachos, onde novamente homens e natureza fazem parte de um único todo. Ao som de “engenho novo bota a roda pra ‘rodá’”, a alegria do engenho antigo funcionando em consonância com todo o ambiente, onde homens cortam a cana, os carros de boi - outro tema recorrente nesta fase de Mauro - carregam a matéria-prima para que o engenho faça sua parte. Contrasta, por outro lado, com as gélidas e mecânicas usinas, onde o tom industrial soa como desafiadora à ordem e a verdadeira vida do homem brasileiro, ligado à terra, à água, a madeira. O metal não faz parte de tudo isso. Ele não é daqui, deste lugar. A indústria também não. “O engenho parou e, com ele, parou a poesia” diz a narração enquanto o vapor parece tomar o lugar intocável do engenho. Cheio de teias de aranha e triste, o velho moinho não funciona mais. Um final triste para o que estritamente bom. Mas eis que em um renascer, a narração se recupera ao dizer que “mas em muitos pontos eles continuam”. Eles, os velhos engenhos, ganham vida como num repente. A música e a alegria fecham o filme com uma positividade de que ainda há esperança. Ainda há, sobretudo, o Brasil surgindo do campo.


Ficha Técnica Título: Brasilianas: Engenhos e Usinas
Duração: 8 min
Ano: 1955
Gênero: Documentário
Cor: PB
Direção: Humberto Mauro
Fotografia e Montagem: Luiz Mauro
Arranjo: Maestro Aldo Taranto
Interprete: Os Cariocas
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