Mostrando postagens com marcador Sam Raimi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sam Raimi. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Morte do Demônio

The Evil Dead
Sam Raimi (1981)

O título em português é terrível, mas como o padrão do Pensando Imagem e Som é manter a forma como o filme foi lançado por aqui, então vá lá. A Morte do Demônio é a primeira parte de uma trilogia que acompanha os encontros de Ash com o sobrenatural. A franquia, encabeçada por Sam Raimi muito antes dele ser famoso e ter assumido os filmes do Homem-Aranha, é uma das mais cultuadas do cinema, sobretudo do gênero terror. O primeiro filme reinventou o gênero, criando alguns dos paradigmas mais importantes que mais tarde seriam seguidos por tantos outros filmes. Sua estética é marcante, visitando em muitos momentos o trash, permitindo que o pequeno orçamento que a produção dispunha tenha sido, de certa forma, compensado com criatividade e uma linguagem inteiramente particular.


Na trama, que de complexa não tem absolutamente nada, um grupo de cinco amigos vão passar um momento de diversão em uma cabana barata no alto de uma montanha, em um lugar absolutamente não-habitado e no meio de uma floresta medonha. É incrível como americano adora ir para esses lugares para curtir, né? Chegando lá, o clima já se mostra meio estranho, o ambiente é bizarro e o lugar está caindo aos pedaços. Os avisos foram todos dados, mas como é de se imaginar, eles ficam lá mesmo assim. No local, encontram um livro que dizia invocar demônios e, obviamente, os mais corajosos leram só para mostrar que achavam aquilo uma bobeira. Aos poucos, um por um deles vai sendo possuído por uma entidade malígna (daí o título original remeter a mortos diabólicos, malígnos ou demoníacos ou até a uma morte demoníaca, não à morte do próprio coisa-ruim), e quem sobra tenta se livrar da maldição até o amanhecer. Se hoje, é uma sinopse defaut dos filmes de terror, isso se deve às inovações narrativas trazidas por esse filme em 1981.

Em nenhum momento, o filme se leva tão a sério. Ainda que os momentos cômicos por natureza sejam raros, todo o clima da produção é por si só exagerado. Os sustos, as expressões, a atuação quase que amadora, principalmente do protagonista Bruce Campbell, as gosmas e flúidos nojentos de cada morte, de cada membro arrancado, de cada olho esmagado, tudo é absurdo demais. Mesmo com um tom mais opressor e claustrofóbico, o filme não deixa de ser curioso e certas cenas violentas acabam causando risos pela estrutura em que são apresentadas. o diretor abusa da câmera na mão como perspectiva subjetiva e não poupa na maquiagem e na meleca, mas não está nem um pouco preocupado com a origem da maldição, com nenhuma explicação filosófica ou construção de personalidades. Nem mesmo com a continuidade ele se ocupa muito, o que permite ótimas risadas ao ver Ash ser banhado em sangue e no plano seguinte já estar de rosto limpinho. o que importa para a produção é o filme, o clima e o desenrolar das coisas. Nada de explicação... tudo anda para frente. Revendo esse filme, entende-se muito da linha que ele segue no recente Arraste-me Para o Inferno.

O filme é até hoje cultuado e considerado um ícone pop. Não é por acaso que gerou suas continuações que serão tratadas logo aqui no blog, cada qual mais insana que a outra. Em um momento em que o cinema se leva a sério demais, com origens sempre muito intrincadas, maldições pautadas por explicações filosóficas e tudo mais que certa o cinema sério, The Evil Dead é um ótimo retorno à origem do cinema descompromissado com a transparência e a suspensão da descrença e realmente focado na diversão, mesmo que pelos meios mais engraçados e nojentos ao mesmo tempo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Arraste-me Para o Inferno

Havia algum tempo que Sam Raimi não se dedicava ao gênero que o revelou e que o tornou famoso, principalmente com a trilogia Uma Noite Alucinante. Depois de anos se dedicando ao famoso super-herói que todos conhecemos como Homem-Aranha, parece que o diretor resolveu dar um tempo e se divertir realizando um filme descompromissado e que não tem nada a perder. Sim, porque errar com um personagem consagrado como Peter Parker é quase que um pecado fundamental em Hollywood e pode derrubar a carreira de qualquer grande talento (vide Bryan Singer, que se não perdeu seu emprego, já não é a sensação do momento depois do mal-sucedido Superman - O Retorno). Agora, se ele errar em um filme como Arraste-me Para o Inferno, provavelmente pouca gente ficaria sabendo, e quem soubesse pouco daria importância. E exatamente por ser descompromissado com a seriedade que ele volta a fazer o que, nos dias atuais, ninguém faz igual: o horror gore mais cômico e divertido que se pode imaginar. E terror gore não significa trash, longe disso. Ainda que sua estética tenha relações diretas com isso, ele consegue fazer um filme de terror nojento e limpinho ao mesmo tempo. Está ficando cada vez mais confuso, né? Vamos à trama.

Christine Brown é uma agente de crédito que, para impressionar o seu chefe e conseguir uma promoção, se mostra forte ao negar mais prazos e benefícios a uma senhora idosa e aparentemente inofensiva. O que ela não esperava era ganhar uma belíssima maldição com essa atitude, a qual prevê que um demônio, Lâmia, a levaria para o inferno pessoalmente depois de atormentá-la por três dias. Sua batalha então será conseguir evitar que a maldição se confirme e conta com a ajuda de um médium e de um nada crédulo noivo para isso. Uma premissa nada original ou revolucionária que, aliás, não se preocupa nem um pouco em se fundamentar. Quem é Lâmia? É o próprio coisa-ruim? É um de vários demônios? Há uma hierarquia de capetas assim? O inferno é o mesmo que alguma religião relata? Quem se importa? Raimi não está nem um pouco preocupado em mostrar a origem do dito cujo exatamente porque não o leva a sério como muitos fariam. Não há uma explicação, não há uma origem, não há um porquê. A velha a amaldiçoou e pronto. Ela está fu... ferrada se não conseguir evitar o seu terrível destino. E isso basta para deixar o espectador ligado ao caminho da protagonista.

Aliás, se o elenco em um primeiro momento pode não convencer, já que tanto Christine quanto seu noivo parecem mesmo personagens de um filme de high school, vemos em seguida que eles cumprem muito bem os papéis. Principalmente Alison Lohman e sua cara de assutada e desesperada. Ela conseguiu assumir o papel de uma forma tão contundente que, se fosse de outra forma, pareceria realmente algo ridículo. Seu noivo, interpretado por Justin Long, não parecia tão a vontade assim, mas exatamente por não acreditar em nada daquilo acabou fazendo da indiferença uma grande virtude do personagem. E não podemos esquecer de Lorna Raver no papel da Sra. Ganish, a tal velha-bruxa-cigana-demo-sei-lá-mais-o-que, que consegue ser tão nojenta quanto assustadora e, perto dela, o tal Lâmia nem parece tão ruim assim. Tudo isso de um modo que o elenco mostra ter comprado a idéia de Raimi e faz um trabalho muito decente por não levar o filme a sério tanto quanto o diretor.

A narrativa não acrescenta em nada ao cinema, ou sequer ao gênero. É uma soma de situações e desodobramentos do que os anos 80 cansou de reproduzir para esse seguimento. E exatamente por isso, acaba trazendo um ar de frescor para um gênero que se tornou sério demais, e de tão sério ficou chato. Em tempos onde as adaptações de terrores japoneses é que são o ponto máximo do medo, nada melhor do que o resgate de uma forma de fazer terror que consegue divertir ao mesmo tempo que assusta. E o mais engraçado é que, em meio a adaptações, refilmagens, prelúdios, releituras e afins, consegue ser a ponta de originalidade que o cinema norte-americano parece ter deixado de lado. Está tudo lá: zoom no rosto da personagem mostrando medo, o susto da assombração que atormenta, a maldição mal-explicada, o vento abrindo portas e janelas, o cemitério, a velha caolha, chuva no momento de tensão, sangue jorrando aos baldes... tudo o que um bom e descompromissado terror precisa ter. O que é mesmo interessante é que, em tempos de seriedade, o clichê é tudo o que se espera em um filme assim.
Related Posts with Thumbnails