segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Arraste-me Para o Inferno

Havia algum tempo que Sam Raimi não se dedicava ao gênero que o revelou e que o tornou famoso, principalmente com a trilogia Uma Noite Alucinante. Depois de anos se dedicando ao famoso super-herói que todos conhecemos como Homem-Aranha, parece que o diretor resolveu dar um tempo e se divertir realizando um filme descompromissado e que não tem nada a perder. Sim, porque errar com um personagem consagrado como Peter Parker é quase que um pecado fundamental em Hollywood e pode derrubar a carreira de qualquer grande talento (vide Bryan Singer, que se não perdeu seu emprego, já não é a sensação do momento depois do mal-sucedido Superman - O Retorno). Agora, se ele errar em um filme como Arraste-me Para o Inferno, provavelmente pouca gente ficaria sabendo, e quem soubesse pouco daria importância. E exatamente por ser descompromissado com a seriedade que ele volta a fazer o que, nos dias atuais, ninguém faz igual: o horror gore mais cômico e divertido que se pode imaginar. E terror gore não significa trash, longe disso. Ainda que sua estética tenha relações diretas com isso, ele consegue fazer um filme de terror nojento e limpinho ao mesmo tempo. Está ficando cada vez mais confuso, né? Vamos à trama.

Christine Brown é uma agente de crédito que, para impressionar o seu chefe e conseguir uma promoção, se mostra forte ao negar mais prazos e benefícios a uma senhora idosa e aparentemente inofensiva. O que ela não esperava era ganhar uma belíssima maldição com essa atitude, a qual prevê que um demônio, Lâmia, a levaria para o inferno pessoalmente depois de atormentá-la por três dias. Sua batalha então será conseguir evitar que a maldição se confirme e conta com a ajuda de um médium e de um nada crédulo noivo para isso. Uma premissa nada original ou revolucionária que, aliás, não se preocupa nem um pouco em se fundamentar. Quem é Lâmia? É o próprio coisa-ruim? É um de vários demônios? Há uma hierarquia de capetas assim? O inferno é o mesmo que alguma religião relata? Quem se importa? Raimi não está nem um pouco preocupado em mostrar a origem do dito cujo exatamente porque não o leva a sério como muitos fariam. Não há uma explicação, não há uma origem, não há um porquê. A velha a amaldiçoou e pronto. Ela está fu... ferrada se não conseguir evitar o seu terrível destino. E isso basta para deixar o espectador ligado ao caminho da protagonista.

Aliás, se o elenco em um primeiro momento pode não convencer, já que tanto Christine quanto seu noivo parecem mesmo personagens de um filme de high school, vemos em seguida que eles cumprem muito bem os papéis. Principalmente Alison Lohman e sua cara de assutada e desesperada. Ela conseguiu assumir o papel de uma forma tão contundente que, se fosse de outra forma, pareceria realmente algo ridículo. Seu noivo, interpretado por Justin Long, não parecia tão a vontade assim, mas exatamente por não acreditar em nada daquilo acabou fazendo da indiferença uma grande virtude do personagem. E não podemos esquecer de Lorna Raver no papel da Sra. Ganish, a tal velha-bruxa-cigana-demo-sei-lá-mais-o-que, que consegue ser tão nojenta quanto assustadora e, perto dela, o tal Lâmia nem parece tão ruim assim. Tudo isso de um modo que o elenco mostra ter comprado a idéia de Raimi e faz um trabalho muito decente por não levar o filme a sério tanto quanto o diretor.

A narrativa não acrescenta em nada ao cinema, ou sequer ao gênero. É uma soma de situações e desodobramentos do que os anos 80 cansou de reproduzir para esse seguimento. E exatamente por isso, acaba trazendo um ar de frescor para um gênero que se tornou sério demais, e de tão sério ficou chato. Em tempos onde as adaptações de terrores japoneses é que são o ponto máximo do medo, nada melhor do que o resgate de uma forma de fazer terror que consegue divertir ao mesmo tempo que assusta. E o mais engraçado é que, em meio a adaptações, refilmagens, prelúdios, releituras e afins, consegue ser a ponta de originalidade que o cinema norte-americano parece ter deixado de lado. Está tudo lá: zoom no rosto da personagem mostrando medo, o susto da assombração que atormenta, a maldição mal-explicada, o vento abrindo portas e janelas, o cemitério, a velha caolha, chuva no momento de tensão, sangue jorrando aos baldes... tudo o que um bom e descompromissado terror precisa ter. O que é mesmo interessante é que, em tempos de seriedade, o clichê é tudo o que se espera em um filme assim.
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