quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Adaptações de tudo o que é linguagem...

Não é de hoje que o cinema bebe na fonte de outras linguagens. Nosferatu (1922), o grande referencial dos filmes de terror, já era baseado em um romance. Outros se seguiram assim, seja no cinema clássico americano, seja em outras escolas pelo mundo. O tema está tão em voga na atualidade exatamente pelo número crescente de filmes adaptados que chegam às salas de projeção mundo afora. A ponto de ficarmos surpresos quando filmes como os de Tarantino terem um roteiro original que partiu de uma idéia apenas. E as perspectivas não são diferentes para um futuro próximo: a cada dia, são anunciadas inúmeras adaptações, principalmente de quadrinhos, mas também de videogames e livros. Dos personagens mais famosos do mundo das HQs, todos já tem os seus filmes ou estes estão em produção. O mesmo para franquias literárias, chegando ao ponto de se anunciarem adaptações de livros que sequer foram lançados ou mesmo escritos. Outras de jogos de tabuleiro sem aparentemente narrativa, como Batalha Naval e Banco Imoliliário, também estão em produção. Os estúdios Disney adaptou recentemente alguns das atrações de seus parques temáticos, como Piratas do Caribe e Mansão Mal-Assombrada. E nesta conta adicionamos desenhos animados, seriados já extintos, linhas de birnquedos, etc.

Se isso tudo é ruim para a sétima arte, é difícil avaliar. É uma tendência de mercado. iniciar uma produção já contando com os fãs que os personagens ou escritores conquistaram faz bem para os cofres dos estúdios. Afinal, que criança que leu ou ouviu falar dos livros de Harry Potter não ficaria curiosa em ver aquelas histórias materializadas? Ou mesmo adultos que acompanham seus quadrinhos há anos e tem a possibilidade de ver aqui recriado com realismo e contado, durante 2 horas, em imagens, sons e tudo o que o cinema tem de recursos técnicos, tecnológicos e de linguagem? São poucos os que ignoram sua história favorita contada de uma outra forma. Mesmo que as críticas sejam ruins. Aliás, um ponto muito importante nesta questão é a qualidade. E, para mim, há duas formas de se avaliar qualidade destes filmes: a qualidade cinematográfica e a qualidade da adaptação. Sim, porque ambas são vistas de forma diferente.

A qualidade cinematográfica, esta analisada pelos críticos cabeções que assistiram milhares de filmes e conhecem as teorias fundamentais do cinema, sua linguagem e história, avalia o ritmo da narrativa, seus elementos, como fotografia, cenários e composições, atuações, trilha sonora, bem como o conteúdo e a forma como a estória é contada. É análise do filme como um filme. E infelizmente muitas das adaptações produzidas na história do cinema são filmes ruins, mal construídos, onde o ritmo e a linguagem do cinema são absolutamente mal ou sub-utilizados. Outras são absolutamente felizes, transpondo no cinema emoção, crítica e todos os sentimentos que um espectador busca quando paga seu ingresso.

Já a qualidade da adaptação é um pouco mais complexa de se avaliar. Geralmente, é resultado da comparação entre o filme e a obra original e é aí que se acontece a maioria dos equívocos na análise. "O livro é melhor" ou "O filme mudou o final e ficou uma porcaria" ou ainda "faltou aquele momento X que era importantíssimo" ou comparações assim são terríveis, injustas e infundadas. Como se pode esperar que em um filme de no máximo três horas estejam contidos todos os eventos narrados em um livro que se demora dias ou semanas para se terminar de ler? Ou como se pode esperar que um filme conte a origem fiel de um super-herói dos quadrinhos que tem 80 anos de história contada e recontada de maneiras tão diferentes e até contrárias umas das outras? E, o que é o mais sério: como comparar duas linguagens tão diferentes entre si entre o que é melhor ou pior? É o mesmo que comparar o que é melhor: uma zebra ou uma baleia? Quais os critérios para se avaliar se o livro é melhor que o filme ou vice-versa? Ou que o jogo é melhor do que a sua adaptação para o cinema? É possível se ter a mesma sensação de jogar Doom e ver o filme Doom? Claro que não... é esse o grande problema na avaliação da qualidade de uma adaptação. Ao invés disso, creio que seja importante olhar para o quão bom ou instigante é ver o filme, ou não. Não se compara os objetos, mas sim a percepção. Os filmes de Resident Evil trazem consigo a experiência do medo que os jogos proporcionam? A magia e a fantasia dos livros de Harry Potter estão lá em toda sua magnitude nos filmes? A adrenalina dos desenhos de Transformers pode ser experimentada em seus filmes? O questionamento das HQs de Watchmen também é carregado pela adaptação? Muda-se o foco do objeto para o espectador. Liberta-se o filme da carga de ser a representação do livro em si. Se fosse assim, o livro seria o próprio roteiro, o que é impraticável.

Será que a partir dessas palavras, podemos ver nossas avaliações de filmes, séries ou games adaptados com outros olhos? Refletir nossa relação com as adaptações é fundamental para que possamos aproveitá-las ou não. Se ao menos pensarmos sobre o assunto, já será um grande passo.

11 comentários:

Equipe ToonSeries disse...

Lidar com fã é mto f...
Existem adaptações que mesmo mudando uma coisinha ou outra agrada tanto os fãs mais fanáticos quanto aquele expectador que foi apenas assistir o filme.

Por exemplo os dois ótimos filmes do Batman novos. Eu mesmo sou fã do homem morcego e adorei mesmo tendo diversas modificações, o que não estragou em nada no filme como um todo. Embora muitos não tenham gostado, o filme do Demolidor também é um dos que mais gosto nessa linha.

Agora existem aquelas adaptações que parecem que foram feitas apenas pra deixar os fãs que esperavam anos pra verem seu personagem em carne e osso putos da vida. Nem preciso dizer que Wolverine e Dragon Ball encabeçam essa lista.

Abraços

Ricardo Braga
Equipe ToonSeries

Cris Caetano disse...

Nunca vai ser possível ficar totalmente satisfeito, e o motivo é meio óbvio, o custo de um filme é muito superior ao custo do livro, a adapatação vai da interpretação de quem adapta também. Sem esquecer a interpretação individual de cada um a respeito dos personagens no livro, por mais óbvios que eles sejam, é possível "viajar" na criatividade, lendo e no filme, não, a papinha está pronta. :) Adorei ver Sin City na telona.

Beijinhos

Petter disse...

Faço minhas as palavras da Cris, também curti MUITO a adaptação de Sin City para as telonas, uma das melhores adaptações que já vi.

Lucaimura disse...

Parabéns Paulo!! Os teus textos parecem o vinho do Porto, ficam cada vez melhores com o tempo :D
Todas as ideias e adaptações para o cinema são sempre complicadas e geram opiniões diferentes. No caso concreto das adaptações de HQ ao cinema, origina sempre controvérsia porque a linguagem nos livros é muito diferente da dos filmes, o que deixa muitas pessoas insatisfeitas com o resultado final. Eu devo ser dos poucos que não gostou do Sin City, porque neste caso não houve adaptação mas sim uma cópia completa do livro para o filme. E desde quando isso é mau?? Perguntam vocês e muito bem!! Simplesmente porque são duas linguagens completamente diferentes, existem planos e diálogos que são um espectáculo num HQ mas ficam horriveis no grande ecran. Basta ver o exemplo ao contrário, quando lançam as HQ das adaptações ao cinema ninguém compra porque são horriveis (eu sei... que exagero!!).

Um abraço.

Dewonny disse...

Olá Paulo, como sempre, vc escreve ótimos textos, sinal de que fiz bem minha escolha, pois tem um selo pra vc lá no meu blog, de reconhecimento pelo trabalho realizado! Parabéns!
Abs! Diego!

altieres bruno machado junior disse...

Olá Paulo

Muito interesante seu post. Conversando com uma amiga minha sobre filmes, ela me perguntou qual filme que estava em produção eu gostaria de ver, daí respondi que era Crônicas de Nárnia, que era uma adaptação de vários livros e que provavelmente sairiam outros filmes dessa história (isso já faz tempo). Daí ela comentou: nossa mas o povo tá sem criatividade mesmo, só se ve no cinema filmes adaptados de livros ou quadrinhos. E é bem isso que acontece mesmo, não só de livros e quadrinhos, mas de brinquedos também como no caso de Transformers e GI Joe.
Eu sinceramente gosto muito. Mas preso mais os roteiros originais, onde a criatividade dos roteiristas e diretores prevalecem.

Abraços e até mais.

Alberto G. P. Oliveira disse...

Gosto de dizer que, ao vermos um filme adaptado de um livro, por exemplo, não devemos esperar todas as nuances da literatura na telona, mas sim um recorte do livro.

Se parar pra pensar, filmes - principalmente os que aspiram uma boa carreira comercial, com alto público e retorno financeiro - seguem uma estrutura de linguagem: duração aprox. de 2h, apresentação dos personagens, suas tramas, pontos de virada, pontos de tensão, resolução final agradável, entre outras. Isso não é necessariamente pejorativo, mas é basicamente assim que funciona.

Então um filme adaptado de um livro vai transpor, da maneira como for melhor possível, parte do conteúdo do livro para o filme. Não é a estória tal qual está nas páginas, mas uma adaptação, algo similar e ao mesmo tempo bem diferente.

Nossa, será que fui claro?! rs
Abraços!

Paulo Roberto Montanaro disse...

Olá pessoal:

ToonSeries: vc tem toda razão... há aquelas adaptações que parecem que foram feitas só para provar que isso nunca deveria ter sido feito. Quando alguma é anunciada, fico com um misto de curiosidade e medo... hehehe

Cris: Concordo plenamente com vc. Um livro, por mais meticuloso na sua descrição, permite que cada recrie aquele universo em sua mente. Qualquer outra recriação parece agressiva. Por isso, é muito complicado falar de um filme comparando com o livro, porque obviamente quem leu já criou aquele universo. Ah, e tbm adorei Sin City :)

Petter: Realmente, é um ótimo filme. Só vi os quadrinhos depois, mas o filme pra mim é uma aula de linguagem de cinema, ao contrário de The Spirit que tenta seguir a mesma linha estilística e se revela uma bomba!

Há braços

Paulo Roberto Montanaro disse...

Continuando...

Luca: Exatamente esse é o ponto: linguagens diferentes. E talvez por isso nunca se tenha conseguido um filme realmente bom adaptado de videogames. Enquanto não se entender que a linguagem para as sensações se equilalham tenha que mudar, vão continuar fazendo porcarias. Como eu disse anteriormente, gosto de Sin City, mas odiei Spirit. Ah... e muito obrigado pela analogia com o vinho do porto... hehehe ainda que seja um exagero, eu fico muito envaidecido mesmo. Valew!

Dewonny: caraca! brigadão mesmo pelo presente... vou publicá-lo aqui com muito orgulho assim que der um tempinho. Valew mesmo!

Altieres: concordo contigo. Claro que a literatura e as outras artes são uma fonte inesgotável de histórias, personagens e ótimas tramas, mas um filme pensado pra cinema, aquele que nasceu pra ser filme, é outra história. É por essas e outras que dizem que o cinema morreu no final dos anos 60... acho exagero, mas se justifica.

Paulo Roberto Montanaro disse...

Fala Betto! Beleza?

cara... é isso aí. O que vai para a tela é um recorte, cheio de intenções por trás. Intenção do estúdio em fazer dinheiro, intenção do produtor do filme ir bem de crítica e público, intenções "artíticas" da equipe, ou mesmo o que os roteiristas acham que é importante ter no filme. Não é o livro. E ainda me lembro que, de preguiça, quando a professora mandava ler um livro, eu ia lá, alugava o filme, assistia e pagava de sabidão na aula. Achava que era a mesma coisa... acho que estava errado. rs

Há braços

KA disse...

Esta é uma questão bem complexa mesmo. Sçao linguagens diferentes como você bem lembrou, mas quando gostamos muito de uma obra fica difícil não questionar as adaptações.
Tem coisas que é melhor não ver, como a passagem do seriado As Panteras para o cinema.Foi patético!
O mais complicado talvez seja livro para filme. Nunca vai corresponder exatamente ao que você imaginou. Tiro o chapéu para Peter Jackson e o Senhor dos Anéis, mas mesmo aasim tenho ressalvas...Outras adaptações, melhor seria se não tivesse visto...
Bjs!

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