O título em português é terrível, mas como o padrão do Pensando Imagem e Som é manter a forma como o filme foi lançado por aqui, então vá lá. A Morte do Demônio é a primeira parte de uma trilogia que acompanha os encontros de Ash com o sobrenatural. A franquia, encabeçada por Sam Raimi muito antes dele ser famoso e ter assumido os filmes do Homem-Aranha, é uma das mais cultuadas do cinema, sobretudo do gênero terror. O primeiro filme reinventou o gênero, criando alguns dos paradigmas mais importantes que mais tarde seriam seguidos por tantos outros filmes. Sua estética é marcante, visitando em muitos momentos o trash, permitindo que o pequeno orçamento que a produção dispunha tenha sido, de certa forma, compensado com criatividade e uma linguagem inteiramente particular.
Na trama, que de complexa não tem absolutamente nada, um grupo de cinco amigos vão passar um momento de diversão em uma cabana barata no alto de uma montanha, em um lugar absolutamente não-habitado e no meio de uma floresta medonha. É incrível como americano adora ir para esses lugares para curtir, né? Chegando lá, o clima já se mostra meio estranho, o ambiente é bizarro e o lugar está caindo aos pedaços. Os avisos foram todos dados, mas como é de se imaginar, eles ficam lá mesmo assim. No local, encontram um livro que dizia invocar demônios e, obviamente, os mais corajosos leram só para mostrar que achavam aquilo uma bobeira. Aos poucos, um por um deles vai sendo possuído por uma entidade malígna (daí o título original remeter a mortos diabólicos, malígnos ou demoníacos ou até a uma morte demoníaca, não à morte do próprio coisa-ruim), e quem sobra tenta se livrar da maldição até o amanhecer. Se hoje, é uma sinopse defaut dos filmes de terror, isso se deve às inovações narrativas trazidas por esse filme em 1981.
Em nenhum momento, o filme se leva tão a sério. Ainda que os momentos cômicos por natureza sejam raros, todo o clima da produção é por si só exagerado. Os sustos, as expressões, a atuação quase que amadora, principalmente do protagonista Bruce Campbell, as gosmas e flúidos nojentos de cada morte, de cada membro arrancado, de cada olho esmagado, tudo é absurdo demais. Mesmo com um tom mais opressor e claustrofóbico, o filme não deixa de ser curioso e certas cenas violentas acabam causando risos pela estrutura em que são apresentadas. o diretor abusa da câmera na mão como perspectiva subjetiva e não poupa na maquiagem e na meleca, mas não está nem um pouco preocupado com a origem da maldição, com nenhuma explicação filosófica ou construção de personalidades. Nem mesmo com a continuidade ele se ocupa muito, o que permite ótimas risadas ao ver Ash ser banhado em sangue e no plano seguinte já estar de rosto limpinho. o que importa para a produção é o filme, o clima e o desenrolar das coisas. Nada de explicação... tudo anda para frente. Revendo esse filme, entende-se muito da linha que ele segue no recenteArraste-me Para o Inferno.
O filme é até hoje cultuado e considerado um ícone pop. Não é por acaso que gerou suas continuações que serão tratadas logo aqui no blog, cada qual mais insana que a outra. Em um momento em que o cinema se leva a sério demais, com origens sempre muito intrincadas, maldições pautadas por explicações filosóficas e tudo mais que certa o cinema sério, The Evil Dead é um ótimo retorno à origem do cinema descompromissado com a transparência e a suspensão da descrença e realmente focado na diversão, mesmo que pelos meios mais engraçados e nojentos ao mesmo tempo.
Poderia começar essa crítica da terceira parte da primeira trilogia de Star Wars criticando a tradução do subtítulo. Afinal, Jedi é uma classe de guerreiros e não uma pessoa em si e, portanto, of the Jedi deveria ser algo do tipo dos Jedi. Mas perto de tantas outras traduções ou adaptações absurdas para o português brasileiro, essa nem faz tão mal assim. O que importa mesmo é falar deste filme que fecha, em 1983 (ano que em que nasci!), a trilogia clássica do universo criado por George Lucas. Se Uma Nova Esperança foi revolucionário pela construção de uma mitologia e pelos efeitos especiais, ao mesmo tempo que O Império Contra-Ataca contribuiu para uma expansão deste mesmo universo, além de se aprofundar na construção dos personagens de forma mais obscura e intimista, O Retorno de Jedi tinha a missão de dar um desfecho a todas as tramas desenvolvidas antes e dar cabo da guerra entre o Império e a Aliança Rebelde. E o fez de forma satisfatória, mas não magnífica.
O longa parte de onde o episódio V havia parado. Com o congelamento de Han Solo em carbonite, estabeleceu-se entre o núcleo protagonista o resgate do arrogante piloto das mãos de Jabba (que parece ter desaprendido a falar inglês do quarto para o sexto episódio). Depois da missão bem sucedida, cria-se um plano para terminar de vez com a guerra e se estabelecer de fato a paz no universo. Para tal, é necessário destruir a nova Estrela da Morte que está sendo construída, mais poderosa do que a primeira, e de quebra eliminar o Imperador, que estará no local inspecionando a construção. Para tal, é necessário que se desative o campo de força que protege a obra, cuja fonte está na lua de Endor, em terra, e está protegida pelo exército do Império. Assim, Solo e Leia partem para o planeta cumprir tal missão, ao lado de Chewbacca, R2-D2 e C3PO, enquanto Lando lidera o ataque à estação em órbita. Ainda há uma terceira narrativa paralela que é o grande foco do filme: a transformação de Luke em um cavaleiro Jedi de fato, passando pelo reencontro com Yoda em Dagobah e o seu grande desafio de superar a tentação do lado negro da força.
Por meio destas três tramas, o filme constrói dois climaxes: a batalha final esperada entre Luke e seu pai, Darth Vader, e a batalha espacial definitiva entre as tropas do Império e os Rebeldes. Um grande problema do filme é a sub-utilização do maior grupo de protagonistas na lua de Endor. Solo, Leia e todo o grupo passam o filme todo fazendo amizade com os Ewoks, raça infantilizada de criaturas que os ajudam em sua missão, e destruindo uma estação. Tudo bem que é a missão fundamental do plano de destruição da Estrela da Morte, mas ao mesmo tempo estão todos fora das tramas principais e dos acontecimentos grandiosos. Isso é ruim para o público, que acompanha estes personagens desde o primeiro capítulo da saga e gostaria de vê-los no quebra-pau de fato, e para a narrativa, que o tempo todo está nos preparando para um segundo descendente Jedi, que se descobre mais tarde ser a Princesa Leia, enquanto irmã gêmea de Luke, e nos reforçando sempre que Solo é o maior piloto de todo o universo. Será que a Aliança não teria mais ninguém para explodir um prédio para deixar seu maior piloto liderando um ataque com naves? Ainda que a trama em terra tenha sido sim importante para desenvolver a relação entre ambos, realmente ficou bem abaixo de qualquer expectativa e relegou os demais do grupo a meros coadjuvantes de fato.
Outro problema é a inclusão dos próprios Ewoks como parte tão importante da saga. Não que eu tenha com eles os problemas que outros fãs tem. O que me incomoda é o fato de eles terem tomado uma proporção absurda para a resolução da trama, vencendo um exército bem treinado e muito bem armado de Stromtroopers com zarabatanas, pedras e flechinhas. Na tentativa de infantilizar o longa e de focar também as crianças, a saga se perde na situação ridícula e, depois de tornar esse exército imperial de clones tão temido e respeitado, os destrói em sequências de comédia pastelão. E se pensarmos em tudo o que as guerras clônicas significam para este universo e olharmos para a nova saga, que desenvolve ainda mais a construção desse poderoso exército, fica ainda mais evidente que a solução encontrada é no mínimo equivocada. A importância dada a esses ursinhos é tão grande que a festa comemorando a vitória da Aliança acontece em seu povoado, sendo que deve haver, em algum canto do universo, uma base onde estão todas as pessoas que passaram anos fugindo do império e dando suas vidas pelos seus ideais. De novo, não sou tão xiita ao criticar a figura do Ewok. É a forma como eles tomaram uma importância exagerada no desenvolvimento da trama que me incomoda.
Por outro lado, todo o desenvolvimento entre o triângulo Imperador, Luke e Darth Vader foi muito bem construído. O grande monarca do lado negro da força tentou de todas as formas, algumas realmente muito convincentes, trazer o jovem Luke para o seu lado. Ao mesmo tempo, Vader ia perdendo todas as certezas que havia estabelecido para si e, sem que o Imperador percebesse, era Luke quem estava seduzindo Vader a negar o lado negro. Essa construção de relações foi muito feliz, bem como as cenas de ação entre pai e filho, onde o embate entre sabres de luz era só uma alegoria para o desafio de palavras e argumentos entre eles. Mas, de certo modo, não seria possível convencer o jovem Skywalker por tudo que ele havia passado. Não haviam argumentos tão fortes para trazê-lo para o lado negro, como haviam para Vader em sua época. Anakin sempre foi questionado pelo Conselho Jedi, sempre teve seus atos muito retalhados por Yoda e Obi-Wan Kenobi e viveu todas as contradições que a fé Jedi não permite, sendo as principais delas o romance com Padmé e a tentativa de não permitir a sua morte. Luke não tinha nada disso. Ele sempre foi muito bem tratado e sempre considerado o escolhido, sem ressalvas. Não vivia um romance proibido e não existia nada no lado negro que fosse tão tentador para que ele fizesse essa escolha. Era simplesmente mais fácil, mas obviamente muito ruim. E foi exatamente isso que Vader viu nele e que não havia visto quanto ele próprio foi seduzido e talvez só nesse momento, ele tenha entendido tudo o que havia aprendido em seus tempos de padawan.
No final das contas, Star Wars - Episódio VI: O Retorno de Jedi é muito competente ao fechar uma das maiores sagas cinematográficas de todos os tempos. Apesar dos deslizes, é uma aventura épica muito bem construída, tecnicamente superior aos dois filmes anteriores e que, de todas as formas, satisfaz o que se esperava do final da batalha. Os momentos de despedida entre Luke e dois dos maiores ícones da saga, Yoda e Vader, são realmente cenas clássicas do cinema e certamente valem o longa por si só. Como um todo, a épica história contada por George Lucas reestabeleceu o que chamamos de ficção científica e, até hoje, é cânone para qualquer um que queira se aventurar pelo espaço. E a Força nunca esteve tão forte nele como esteve naquele momento.
Enfim, terminam as postagens sobre a saga clássica e sigamos para a nova trilogia. Será que há um abismo tão grande entre uma e outra? Vejamos a seguir.