segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Saga Crepúsculo: Lua Nova

E não é que no final das contas, eu acabei me rendendo à toda histeria? Depois de algumas semanas resistindo ao burburinho, lá vou eu assistir a mais nova produção baseada na série de filmes escrita por Stephenie Meyer. Continuação de Crepúsculo, Lua Nova embarca no fenômeno alcançado pelo seu predecessor e aposta na mesma linguagem adolescente que conquistou multidões de garotas de 12 anos pelo mundo inteiro (independentemente da idade do R.G.). E lá estou eu em um domingo chuvoso, na já esvaziada sala de cinema da quarta semana do filme em cartaz, evitando assim suspiros e gritos alucinados a cada camiseta arrancada, a cada palavra melada ou a cada declaração de amor eterno.

Tecnicamente, Lua Nova é muito melhor que Crepúsculo. Talvez mais dinheiro tenha ajudado, mas há um certo profissionalismo mais evidente no filme, que agora tem cara de cinema, de fato, já que o anterior tinha cara de uma versão infantil do seriado True Blood. O roteiro é bem amarradinho e tem um ritmo interessante, ainda que a primeira parte pareça se arrastar mais do que deveria. A fotografia é bonita e em momento algum transparece alegria, luz, ou liberdade. É sempre melancólica, tal como a personagem se mostrava depois de ter sido abandonada. As interpretações não comprometem, a não ser pelo fato de que atores de 25 ou 30 anos continuarem a interpretar garotos de 16 com a maior cara-de-pau, e essa idade acaba sendo bastante martelada no filme, já que além do abandono, o passar do tempo também se mostra um problema para a protagonista Bella. No mais, efeitos especiais convincentes e adequados já são uma ótima evolução se comparados aos efeitos meia-boca de Crepúsculo. E a comparação é sempre inevitável, já que cada qual é uma parte de um grande e único filme, ou como eles gostam de chamar, saga.

O que mais incomoda mesmo é a trama construída a partir de um plot, ou de um ponto-de-partida, ruim. Depois de passar poucas e boas para ficar com a garota, Edward decide se afastar dela para tentar protegê-la, abandonando-a independentemente da vontade dela. Isso a faz definhar e sofrer, principalmente pelo papo-furado que ele usou como desculpa para partir de que ela não é boa o bastante para ele. Tudo bem que a grande metáfora do sacrifício pela amada está ali e é tudo o que o público espera, mas nem mesmo a novelinha global Malhação usa mais de um enredo tão fraco. E olhe que o rapaz tem 109 anos e, teoricamente, teria um tempo de amadurecimento e de entendimento das coisas para saber que esse tipo de afastamento não ajudaria em nada a ele ou a ela. Mas enfim, o rapaz parte e some na primeira metade do filme, deixando caminho livre para Jacob se aproximar de Bella. Algumas camisas arrancadas, sorrisos amarelados e mais camisas arrancadas e o casal já troca aqueles olhares que todos sabem o que significam até que a história se repete e ela descobre o segredo do garoto, iniciando um novo drama.

No final, obviamente que tudo o que todos estão esperando acontece e não cabe a esse texto descrever o desfecho que a essa altura não é segredo nem pra quem nunca ouviu falar do filme. O fato é que a narrativa tem todos os elementos que precisa ter e, se há algo que Hollywood sabe fazer bem é dar ao seu público o que ele quer. Está tudo lá: romance, barrigas definidas, adolescentes em crise de identidade, aventuras, amor acima de tudo, hormônios à flor-da-pele... o longa é uma amálgama de situações para causar a tal identificação do público com os personagens. Faltou um pouco mais de leveza, de momentos de alívio cômico, já que a situação pode causar ótimas pequenas piadas que dariam aquele respiro durante a trama sempre muito pesada, mas a estética emo de sofrimento 24 horas diárias por amor não permitiria tal licença e, desta forma, tudo é sério demais. Se para quem já passou dos 20 anos, os dramas de Bella podem soar ingênios e coisas da idade, para quem tem menos é a representação do mundo caindo sobre si.

Sinceramente, não há nada na Saga Crepúsculo que não haja em True Blood. A diferença é que nesse segundo, a série de TV citada anteriormente, tudo parece muito mais maduro. A tal da tensão sexual está lá, só que bem mais resolvida, permitindo ao drama dar um passo além. Mesmo a crise do romance de um vampiro e uma humana, a passagem do tempo, a aceitação, o preconceito, a garota especial, tudo está lá, só de uma forma que pode evoluir para outros aspectos. Não há dúvidas que o universo criado por Meyer é bacana, mesmo não sendo a coisa mais original do mundo, e é possível que se explore esse universo para além de dramas adolescentes. Uma das cenas finais onde há os conflitos entre vampiros é um bom exemplo disso e uma das únicas cenas que realmente valem a pena, não só pela ação, mas também e principalmente pelas relações que se dão entre os personagens para além do romance que todo mundo já está cansado de acompanhar. Há muito mais além do simples maniqueísmo entre os bons e os maus, os vegetarianos e os carniceiros, os que gostam dos humanos e os que os detestam. Há variantes, há meios-tons que poderiam estar na primeira linha da narrativa. Mas tudo o que a cena conquista é deixada de lado no final, mostrando que o que importa de fato é quem vai ficar com quem. Uma pena.

Engraçado que esse é um dos poucos momentos onde a grande maioria das críticas negativas não significam nada. A forma como a franquia se estabeleceu enquanto meio de identificação com um público tão fiel é tão forte que é como a paixão de Bella por um vampiro ou mesmo o desejo dela de se transformar em um deles. Não importa o que os outros digam, não importa o que a razão diga. Ninguém mudará a opinião dela e tudo terá que ser do jeito que ela quer. Do mesmo modo, não importa o que se diga do filme. Este é a grande projeção pessoal dos fãs e, desta forma, como todos os sonhos e desejos, é perfeito. Bom para os fãs e bom para o bolso dos produtores.
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