sábado, 27 de agosto de 2011

[ Review ] Planeta dos Macacos - A Origem

A primeira questão para além da elaborada trama de O Planeta dos Macacos - A Origem que nos envolve ao final da projeção é bastante clara: será que, em algum momento, vamos parar de nos impressionar com a evoluação da tecnologia que permite a construção de coisas, cenários, universos e, principalmente, criaturas vivas, por meio da computação gráfica? Se em O Senhor dos Anéis já nos derretíamos com a fantástica participação de Gollum, a sensação foi ainda mais intensa com a nova leitura de King Kong, ambos de Peter Jackson. Se puxarmos ainda mais pela memória, poderemos relembrar que tudo isso começa mesmo para o grande público lá nos anos 1990, com o primeiro Jurassic Park, de Steven Spielberg, arrasando quarteirões. E, mesmo assim, neste novo trabalho, o fascínio que se iniciara já nas fotos de divulgação e depois nos primeiros trailers também é transportado para as quase duas horas do filme. Então, volto à questão? Há um limite? Há algum ponto onde não haverá mais como dar o passo seguinte? Talvez quando não soubermos mais diferenciar personagens humanos reais dos criados pelo computador... até lá, que bom que temos a oportunidade de acompanhar cada passo desta evolução.

Evolução é mesmo o tema deste filme. Não necessariamente no sentido de progressão, ou de melhoria, ainda que os dois conceitos possam se confundir o tempo todo para nós e para os personagens. A trama acompanha Cesar, símio dotado de uma modificação genética que lhe permite aumento significativo e progressivo da capacidade mental, desde o seu nascimento até seu amadurecimento como o grande líder que, sabemos todos, mais tarde se tornará uma lenda entre a civilização que substituirá a humana no futuro. Tais habilidades lhe são conferidas quando sua mãe é cobaia de testes de uma droga, que mais tarde se revela um vírus, desenvolvido e pesquisado como avanço no tratamento do Mal de Alzeimer. Há os personagens humanos na trama, como em toda a franquia, mas o foco do filme os relega a coadjuvantes do grande protagonista, algo já visto no citado King Kong. James Franco está bem como Will Rodman, mas seu drama com seu pai, que possui a doença e é o motor de sua pesquisa, e com a sua namorada, acabam nem ofuscando aquilo que nos interessa de fato. Sua presença, portanto, se faz necessária, mas não é pré-requisito para uma aguardada sequência, já que Cesar e sua história têm vida própria e são motores de tudo o que está por vir.

Contudo, o filme tem alguns pontos que podem incomodar alguns. As feições de Cesar são tão realisticamente humanizadas que não deixam de causar aquela estranheza, de ao mesmo tempo que não há defeitos, parecer falso. Os demais símios, todavia, são mais realistas visualmente e me agradaram mais. Ainda assim, o comportamento de todos eles é talvez o mais esquisito, já que carregam todos os clichês do ser humano. A ponto de, ao fim da cena onde primatas e seres humanos guerreiam na Ponte Golden Gate, termos o ritual de despedida mais repetido da história do cinema norte-americano. Na minha visão, adquirir inteligência comparável a de humanos não significa obter também seus costumes, sua cultura e seu comportamento social. Obviamente, Cesar cresceu assistindo televisão e acompanhando a rotina de homens e mulheres, muito mais do que a de seus iguais, e, assim, estes seriam suas referências. Mas não acredito que tal influência seja determinante para sua essência. Afinal, ter a mesma capacidade mental não siginifica ser a mesma coisa. Se golfinhos fossem tão inteligentes quanto cães, não latiriam, nem correriam atrás de carros (ou fariam?). Por definição, ele não é humano, e este ponto específico acaba se tornando o motor de sua rebelião contra até mesmo as pessoas que o amam. Também achei curioso como alguns macacos que não não foram afetados pelo tal vírus, quando escapam, já assumem o mesmo comportamento dos demais. Será que a inteligência é contagiosa? Ou a revolução o seria?

Detalhes a parte, Planeta dos Macacos - A Origem é um grande filme. A narrativa é muito bem construída e nada parece ser por acaso no desenvolvimento dos sentimentos e princípios de Cesar. Sua relação com os demais macacos também é muito bem concebida. Neste caso, os clichês são bem vindos, com a constituição de seu grupo. O sábio, o brutamontes, o arquirrival... todos compondo um grupo heterogênio, mas complementar em suas habilidades, sentimentos e motivações e, deste modo, acabam se transformando em algo que chamaríamos de generais no exército angariado pelo grande líder. Outros símios também tem seus momentos, mostrando uma capacidade muito grande do diretor Rupert Wyatt em construção de personagens, visto que não é fácil trabalhar vários sujeitos sem diálogos. Aqui, a tal tecnologia que foi tratada no início deste texto é fundamental, mais do que para um belo espetáculo visual, para dar personalidade a tantos indivíduos diferentes. Expressões faciais, sinais corporais e tempo de comunicação fazem destes, na minha opinião, os mais completos personagens digitais já criados no cinema. E aqui vale uma menção especial ao trabalho maravilhoso de Andy Serkis, fundamental para dar vida a Cesar, assim como o foi com Gollum e King Kong. Está se especializando nesse tipo de trabalho e deve fazer escola, já que não adianta ter a tecnologia mais avançada se não houver material humano competente para explorar suas potencialidades.

Certamente, um dos melhores filmes da temporada. A franquia parecia esgotada quando o remake de Tim Burton fracassou em 2001, não por ser ruim, longe disso, mas por não despertar no público o mesmo fascínio das versões anteriores. Se, em 1968, o primeiro Planeta dos Macacos, com Charlton Heston, se mostrou algo para além de entretenimento, com forte crítica social, em 2011, exatamente reiniciando a franquia de um outro ponto de vista, utilizando de uma outra estética e uma linguagem própria, este novo filme faz jus ao legado que carrega, ao mesmo tempo que tem alma própria, se permitindo ir para além do que já foi feito, mesmo que cada referência seja muito bem vinda. E talvez o mais bacana seja torcer pelo apocalipse, porque sabemos o que o futuro reserva para a raça humana, e mesmo assim, torcemos pela revolução. Curioso, não?
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