domingo, 12 de julho de 2009

True Blood - 1ª Temporada

Confesso que demorei muito para me interessar por este seriado. Estava um tanto quanto dedicado a outras, e o tempo infelizmente é limitado, mas o burburinho positivo e a campanha para o início da segunda temporada me chamaram a atenção. No final das contas, assisti esta primeira temporada em menos de duas semanas, a tempo de alcançar e acompanhar a série normalmente agora.

True Blood não é uma série sobre vampiros, como muitos a definem simploriamente. É uma série sobre diferenças. na trama, Sookie Stackhouse (Anna Paquin) é uma típica garota do interior nore-americano, garçonete e extrovertida, mas que tem uma particularidade: consegue ler os pensamentos de outras pessoas, meio que involuntariamente. Curioso como exatamente quebrando a premissa de falar de vampiros x pessoas normais, a primeira pessoa diferente a ser apresentada ao público é... uma humana! Bill (Stephen Moyer) é apresentado logo em seguida, como um vampiro agora integrado à sociedade. Isso é possível porque, durante séculos, os vampiros estiveram à margem da sociedade "civilizada", enquanto lendas, mas assim que uma empresa japonesa criou sangue sintético, chamado de Tru Blood, as criaturas imortais poderiam então conviver pacificamente entre os humanos, já que não precisariam se alimentar deles. o encantamento de Sookie e Bill é instantâneo, incomodando muita gente, dentre eles seu chefe, seu irmão e sua melhor amiga. a trama da primeira temporada se desenvolve então não acerca de um amor proibido, mas sim um amor socialmente pouco aceito.

O roteiro é bastante competente. Consegue envolver cada um dos personagens, em maior ou menor grau, em uma trama una e bem amarrada. Tem-se tramas paralelas, com as roubadas que o irmão de Sookie, Jason, se envolve por causa de mulheres e prazer. Há o drama familiar de Tara, sua melhor amiga, e o "núcleo" dos vampiros mais barra-pesada, que supostamente estão dando pouca ou nenhuma importância à nova lei civil que dá direitos comuns a eles. Tudo isso girando em torno de um complexo relacionamento do casal central. A direção já tem um pouco menos de sorte que o roteiro. Muitas vezes, a dinâmica de cena é bastante estranha, principalmente em momentos de maior tensão e interação entre mais do que três personagens. Bons exemplos dessa direção perdida são o momento onde Sookie encontra outros vampiros na casa de Bill, onde cada personagem parece estar sobrando quando há um diálogo entre dois deles. Outros momentos parecidos são algumas das sequências dentro do bar, cenário onde o seriado se desenvolve por um bom tempo de tela. É como se cada crise, cada discussão, cada conversa fosse invisível aos demais. A impressão é a mesma daqueles filmes onde o motorista conversa com o passageiro no carro sem olhar para onde está indo. É como se a situação fosse somente uma desculpa para o diálogo, e não parte da narrativa. Esse incômodo pode passar desapercebido se olharmos por cima, mas de certa forma influencia até mesmo na veracidade do momento.

O que realmente há de se destacar em True Blood é a sua temática. Sendo uma adaptação de livros, espera-se muito da trama. Ela resgata aquilo que de mais interessante há nos vampiros, principalmente se lembrarmos de Nosferatu ou até do Drácula (o de Bram Stoker, não as terríveis leituras dele nos últimos tempos no cinema e na TV), que é aquele clima de sedução. Um vampiro não ataca suas vítimas como uma besta, ou um monstro. Ele joga, o tempo todo, em alto nível, com a libido, com a curiosidade, com o medo, mas aquele medo bom de se sentir, com a adrenalina, com o instinto de gostar do perigo natural do ser humano. Uma mulher não foge de um vampiro. Ela praticamente quer ser mordida. são criaturas sobrenaturais e, exatamente por isso, podem ser diferentes, quem sabe melhores, que homens mortais. São conquistadores que desenvolvem por séculos uma técnica para conquistar suas presas e, extamente por isso, não são animais, como lobisomens ou tantos outros. É exatamente essa a sensação de Sookie ao se aproximar de Bill. O fato de ela não conseguir ler sua mente é só uma alegoria para mostrar a ela que ele é completamente diferente de qualquer outro homem que ela tenha conhecido, o que lhe causa fascínio.

Um outro grande ponto a se destacar é a questão do "aceitar o outro". Mesmo depois de conquistar o direito constitucional, os vampiros são excluidos da sociedade, cheio de rótulos e de pré-concepções a seu respeito. O fato da trama se passar em uma cidade sulista e interiorana dos Estados Unidos não é mera formalidade. Mesmo a guerra civil americana, que muitas vezes é citada nessa primeira temporada, traz muita significação na questão do preconceito. Assim como a integração dos negros na sociedade tradicional e puritana americana, o "enturmamento" dos vampiros é carregado de muita discriminação e segregação. Aqueles que parecem dispostos a seguir com seus direitos adiquiridos sofrem com represálias, as vezes violentas. Não importa quem você é, mas sim de onde você vem. Escravos negros eram considerados sub-humanos e indignos de viver entre as pessoas superiores, o que gerava muita indigação e confronto. O fato de Tara sempre citar a questão dos escravos e, ao mesmo tempo, ser a primeira a questionar o encantamento de Sookie por Bill é a metáfora da hipocrisia. Direitos iguais para todos nós, mas não para aqueles de quem já temos um conceito formado. E foi exatamente nesse ponto que a série me surpreendeu mais: escancarar, de forma simbólica, o quanto somos preconceito ao que nos é diferente. religião, cor, raça... a história da humanidade é marcada por guerras e todas elas são causadas, basicamente, pela intolerância ao outro.

Se a questão de direção for melhor trabalha e a série seguir tratando destes temas com toda a coragem que mostrou na primeira temporada, tem tudo para ser mais do que um entretenimento de romance e terror. E, se não pode ser eterna como um vampiro, que tenha uma longa vida.
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