quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

[ Crítica ] BBB - Big Brother Brasil


A espetacularização do zoológico humano

Não há dúvidas que o tal voyerismo é uma característica absolutamente humana. Ver, presenciar, acompanhar, assistir... desde os tempos remotos, o homem tem prazer em se dedicar a ver o outro ou outra coisa. O turismo é a expressão mais óbvia desta característica. Conhecer outros lugares, outras culturas, outras coisas, outras pessoas, está na gênese do existir humano. Os animais expostos em zoológicos que o digam. Dia após dias as pessoas vem até eles, acenar, chamar, olhar, esperando uma macaquice qualquer para voltarem para suas casas satisfeitas. 

Saber da vida de outros também faz parte desta curiosidade. Se isso acontece com os vizinhos, com os parentes ou até com os desconhecidos que se vê passando na rua, ou aquele que deixa a janela aberta, imagine se a casa inteira do outro estiver escancarada durante 24 horas por dia? Demorou, muito até, para que a indústria do entretenimento pensasse nisso. É exatamente com essa premissa - a de poder acompanhar cada segundo da vida de uma outra pessoa e da sua relação com demais - que surgiu, nos países baixos, o programa Big Brother, carro-chefe dos chamados reality-shows. Fenômeno de público, se espalhou rapidamente pelo mundo e, em 2002, chegou ao Brasil. O sucesso, como se já projetava, foi imediatamente refletido na audiência e, desde então, já se vai quase uma década de edições anuais, sempre batendo recordes nos números do IBOPE. Não vou me estender mais nessa história, ou mesmo na descrição que pressupõe o jogo, pois esse não é o objetivo aqui. A questão que coloco em discussão é exatamente o que significa isso enquanto um programa de TV que atrai tanta atenção em tempos de tecnologia digital e inteligência coletiva.

O mais surpreendente é que, ano após ano, o roteiro se repete e, ainda assim, o interesse do público só tende a aumentar. Cada terça-feira é um alvoroço multimidiático para saber quem será o eliminado da semana, e nos outros dias, cada movimento provocado pela produção do programa, o tal do "grande irmão", é para incitar a disputa e elevar (ou seria rebaixar?) o nível de conflitos internos de cada participante e os externos com todos os outros. Para o público, resta assistir, e votar para eliminar o participante com o qual menos simpatiza, ou proteger o seu favorito. Quanto à produção, um verdadeiro sucesso: a publicidade do programa custa uma fortuna - e o prêmio milionário é apenas uma pequena fração do investimento que se faz; a edição, ou montagem, é nada menos que genial (até porque editar o material oriundo de 24 horas diárias de dezenas de câmeras em um compacto de apenas quinze minutos, ou uma hora na maior das hipóteses é um trabalho homérico!); e a apresentação de Pedro Bial é certamente muito bem conduzida. Então, porque o programa gera discussões fervorosas da crítica e de profissionais em educação, mídia, psicologia, filosofia, cultura, dentre outros tantos? Na minha opinião, a resposta para essa questão é o escancaramento da condição ridícula a que pode chegar um homem, ou uma mulher, a troco de fama, sucesso e dinheiro, e o fascínio que isso parece causar em tantas outras pessoas, em uma espécie de prazer bizarro em se sentir no controle do destino daquelas criaturas ali expostas. 

Assistir os vídeos que os candidatos enviam para a produção do programa no YouTube, ou mesmo na própria programação da Rede Globo já era uma diversão à parte. A chamada "Casa de Vidro", onde alguns participantes ficaram dispostos durante uma semana em um shopping center, esperando para saberem se iriam entrar ou não no jogo por um milhão de reais, deixa claro que se perde toda e qualquer noção de ridículo na busca do objetivo suposto de vencer o jogo e embolsar o grande prêmio. Os próprios candidatos, em entrevistas, reclamavam da necessidade de sorrir o tempo todo, dormir pouco, usar roupas mínimas e obedecer qualquer capricho de pessoas desconhecidas para que se conseguisse alguns votos. Só faltou um deles ter que se pendurar pela cauda em algum galho para conseguir uma pipoca murcha (se aconteceu, não vi nos trechos editados apresentados pelo programa).

Mais do que em qualquer outro programa, o Big Brother Brasil, ou BBB, promete permitir que qualquer pessoa, de qualquer etnia, sexo ou classe social, possa opinar e julgar os participantes do programa de maneira igualitária. É o delírio coletivo do poder sobre o outro que leva, ano após ano, a audiência do programa a se manter firme e fiel. Ainda que eu não possa analisar o programa quanto a comportamento, ou de relações intra e interpessoais, como provavelmente fazem psicólogos e psiquiatras, vejo que, pela ótica da produção audiovisual, o BBB é, ou não, a expressão do que se acredita mais interativo na pobre TV aberta brasileira. Parece mesmo um contrasenso em tempos onde se fala de audiência ativa e do tal sujeito ubíquo, responsável também ele pela produção do conhecimento colaborativamente, que nossa maior expressão de interatividade de grande público seja o fator de decidir quem deve ter uma semana a mais na jaula da exposição ao ridículo. Ao invés de audiência seletiva e crítica, somos senhores verdadeiramente de uma escolha: decidir não sobre o produto audiovisual que se está consumindo, mas sobre que macaco merece a maior banana.

PS: Esta crítica é uma reedição revisada e ampliada deste mesmo blog.
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